ISSN 1413-389X
Neste artigo, abordamos a inquietação científica presente na psicologia na perspectiva do filósofo francês Maurice Merleau-Ponty, com ênfase na aproximação do autor em relação à psicologia da Gestalt e à psicanálise. Ambas ocuparam um papel positivo na sua filosofia e representaram o movimento de “autocrítica do psicólogo”, que, seguido e radicalizado, revelou as “verdadeiras inspirações” destas psicologias e possibilitou a elaboração de novos instrumentos de reflexão filosófica. Pode-se dizer que o acompanhamento da evolução científica espontânea, seguido de uma radicalização crítica, constitui o método utilizado pelo filósofo francês na sua aproximação com a psicologia.
Merleau-Ponty acompanhou a dinâmica epistemológica no seio da psicologia do início do século XX. Baseando-se no problema das relações entre a fenomenologia e a psicologia em Husserl, observou convergências entre elas. Segundo Merleau-Ponty (2001), Husserl subordinava a possibilidade de uma psicologia, encarregada da pesquisa sobre os fatos, a uma psicologia eidética, que, dedicando-se à reflexão sobre a experiência, depreendesse o seu sentido e oferecesse coerência e validade às noções a serem utilizadas pela psicologia empírica. Nos estudos de Sartre acerca da imaginação e da emoção fica patente a concordância com esse dispositivo husserliano (Bimbenet, 2004). A análise eidética, que respondia pela compreensão da essência ou do sentido do ato intencional, era então considerada indispensável ao conhecimento dos fatos. “A relação entre psicologia e fenomenologia deveria ser entendida de maneira análoga às relações entre física e geometria; foi preciso haver geometria para haver física” (Merleau-Ponty, 2006a, p. 405). Sartre, em seu trabalho sobre a imaginação, e baseando-se em Husserl, enaltecia a análise fenomenológica da essência da imagem como sendo certa e desqualificava a análise indutiva e experimental da imagem como sendo apenas provável. No entanto, Husserl também se referiu às distinções entre a psicologia eidética e a psicologia empírica, dando destaque a uma relação de entrelaçamento ou de envolvimento recíproco entre elas. O filósofo dizia, então, que todo conhecimento acerca dos fatos enseja intuições sobre as essências, e que o estudo destas não é um privilégio exclusivo da fenomenologia. Merleau-Ponty (2006a), comentando tais referências de Husserl, diz:
entre o ponto de vista da psicologia e o ponto de vista da fenomenologia, ou da psicologia empírica, o que há é sempre o homem. Por conseguinte, mesmo que nossa imagem empírica de ser humano seja adquirida com todos os pressupostos da psicologia empírica – que vê o homem situado numa causalidade do mundo –, essa psicologia empírica, quando atenta para o que descreve, sempre acaba por dar ensejo à inversão que não vê o homem como parte do mundo, mas como o portador da reflexão (p. 411).
Para Merleau-Ponty, o filósofo não é mais o “funcionário da humanidade”, um juiz dotado do poder de julgar os conflitos entre o empírico e o transcendental (Bimbenet, 2004). Além disso, para Merleau-Ponty (1994), os filósofos não possuem o direito de se reservar à interpretação última dos conceitos científicos, visto que não possuem o manejo profissional das técnicas científicas e, portanto, não saberiam intervir no terreno da pesquisa indutiva. As ciências humanas lidam com as suas contradições internas e apresentam um desenvolvimento espontâneo. A instabilidade das ciências humanas, entre a objetividade e a subjetividade, leva-as a uma constate revisão das relações entre estes dois pólos. Com efeito, observa-se um aprofundamento destas ciências, entre elas a psicologia, em direção de uma melhor circunscrição do seu objeto de estudo. Neste sentido, o pesquisador opera uma autocrítica, ele é árbitro dos conflitos entre as perspectivas realista e intelectualista.
a autocrítica perpétua do cientista constitui uma forma de inquietude que é essencial às ciências humanas, e que responde exatamente ao espanto do filósofo face ao tema antropológico. Isso corresponde a dizer que aos olhos de Merleau-Ponty o psicólogo está longe do obscurantismo de que Sartre fala, e que os ‘fatos’ sobre os quais ele trabalha, longe de limitar sua compreensão do fenômeno humano, são para ele o lugar de uma possível reapropriação deste fenômeno (Bimbenet, 2004, p. 19).
Para Politzer (1928/2003), a história da psicologia moderna não corresponde à história de uma organização, mas à história de uma dissolução. Diz o autor: “o movimento psicológico contemporâneo não é senão a dissolução do mito da dupla natureza do homem” (Politzer, 1928/2003, p. 7). O autor destaca os dois significados mais comumente atribuídos ao termo “vida”. Um deles designa um fato biológico; e o outro designa a “vida propriamente humana”, a “vida dramática do homem”. “Esta vida dramática, diz ele, apresenta todos os caracteres que tornam um domínio suscetível de ser estudado cientificamente. E mesmo que a psicologia não existisse, é em nome desta possibilidade que se poderia inventá-la” (Politzer, 1928/2003, p. 12). As inspirações que levaram ao surgimento do que era a psicologia oficial são, na opinião do autor, opostas às únicas inspirações capazes de justificar a sua existência. Nessa perspectiva, Politzer considera três tendências da psicologia que operavam a dissolução da psicologia clássica em direção de uma psicologia voltada para o concreto1: a psicanálise, a Gestalttheorie, ou psicologia da Gestalt, e o behaviorismo. Em Crítica dos fundamentos da psicologia, Politzer (1928/2003) centraliza suas pesquisas sobre a psicanálise e define da seguinte forma o seu objetivo na obra:
Tratar-se-á, pois, de uma parte, de liberar a psicanálise dos prejuízos com os quais partidários e adversários a envolvem, procurando sua inspiração verdadeira, e opondo constantemente esta aos procedimentos constitutivos da psicologia clássica da qual ela implica a negação, e, de outra parte, de julgar as construções teóricas de Freud em nome desta inspiração. (p. 25, grifo nosso).
Ao termo “inspiração verdadeira” podemos aproximar o termo “latência”, utilizado por Merleau-Ponty (2000) para referir-se à psicanálise no que tange à crítica da ontologia positiva e do pensamento causal (Rodrigo, 2002). Merleau-Ponty (2000) diz: “Fenomenologia e psicanálise não são paralelas; é bem melhor: ambas se dirigem em direção à mesma latência” (p. 283). Com isso, torna-se mais clara a própria intenção de Merleau-Ponty junto à psicologia da Gestalt e à psicanálise. Considerando-as como eminentes representantes da autocrítica do psicólogo, ou seja, do movimento crítico e auto-reflexivo que existe no seio da própria psicologia, trata-se de procurar a sua inspiração, a sua latência, e de radicalizar a crítica, denunciando os postulados da antiga psicologia que possam ter sido herdados e, assim, impedir o termo do processo de renovação (Bimbenet, 2004). Há, sobretudo, objetivos filosóficos incitando a aproximação de Merleau-Ponty com a psicologia. O estudo sobre a percepção iniciado pela perspectiva da psicologia atenua o risco de que o discurso se instale de imediato em uma dimensão transcendental e, ao mesmo tempo, permite que o problema do transcendental seja compreendido em toda a sua extensão, inclusive com a compreensão de como se chega a ele a partir da atitude natural.
Se, por exemplo, nos propomos a fazer uma psicologia positiva da percepção, admitindo que a consciência está encerrada no corpo e sofre, através dele, a ação de um mundo em si, somos conduzidos a descrever o objeto e o mundo tais como eles aparecem à consciência e, através disso, a nos perguntar se este mundo imediatamente presente, o único que conhecemos, não é também o único do qual convém falar. Uma psicologia sempre é levada ao problema da constituição do mundo (Merleau-Ponty, 1945/1999, p. 93).
Mas, se para Merleau-Ponty não é possível começar sem a psicologia, também não é possível começar apenas com ela. A filosofia encontra-se antecipada na experiência e, por outro lado, ela não passa de uma experiência elucidada.
Pinto (2007) considera que, em Merleau-Ponty, as reflexões sobre a noção de forma constituem a expressão maior da relação entre filosofia e ciência. Com efeito, a noção de forma permite novas soluções ao problema das relações entre consciência e natureza. Na psicologia clássica, a unidade do campo perceptivo é analisada a partir da noção de sensação. A unidade do campo perceptivo é fundada, então, em operações de inteligência, responsáveis pela reconstrução do mosaico de sensações que constituem os dados perceptivos. A teoria da Gestalt rejeita a noção de sensação e nos leva a não distinguir o signo e a sua significação, o sentir e o julgar (Merleau-Ponty, 1966). Para Merleau-Ponty (1942/2006b), o que há de profundo na “Gestalt” não é a idéia de significação, mas sim a idéia de estrutura, que configura “a junção de uma idéia e de uma existência indiscerníveis, o arranjo contingente pelo qual os materiais passam, diante de nós, a ter um sentido, a inteligibilidade no estado nascente” (Merleau-Ponty, 1942/2006c, p. 319). A noção de Gestalt naturalmente desenvolvida faz da natureza e da idéia uma unidade (1942/2006b, p. 227).
A crítica ao “prejuízo do mundo objetivo” e a reconquista do campo fenomenal, operadas por Merleau-Ponty (1945/2005) na Fenomenologia da percepção, trazem alguma luz sobre o papel ocupado pela psicologia da Gestalt no seu pensamento. Nesta obra, o autor focalizou a experiência perceptiva, preocupado em explicitar nela o papel constituinte do corpo próprio e, assim, a inscrição natural da consciência. O filósofo iniciou sua trajetória de reflexão por um debate crítico com os pensamentos clássicos acerca da experiência perceptiva. Para ele, estes configuram, tão somente, o produto de reflexões que se afastam do fenômeno interrogado – desde que baseiam suas pesquisas no primado dos atributos percebidos dos objetos, primado que o filósofo denomina “prejuízo do mundo”. Neste sentido, a crítica ao “prejuízo do mundo” pode ser considerada a versão merleau-pontiana da redução fenomenológica (Pinto, 2006).
Merleau-Ponty fala em “prejuízo do mundo” para se referir ao primado do objeto percebido, tomado no sentido de análises realistas, sobretudo, e que o consideram enquanto constituído de fragmentos de matéria e concebido num espaço composto de pontos exteriores uns aos outros. Na perspectiva deste objeto real e fragmentário, a percepção é concebida como uma transposição de elementos reais para uma representação do mundo fundada nas impressões recebidas pelos órgãos do aparelho nervoso. Em outras palavras, a percepção, na perspectiva do prejuízo do mundo objetivo, é construída a partir daquilo que pressupomos estar nas coisas.
Mas, é principalmente sobre a noção de sensação que Merleau-Ponty se debruça, considerando-a um produto da consciência científica, que mascara a subjetividade ao invés de revelá-la. A sensação pura seria como um “choque instantâneo”, indiferenciado e pontual, um estado responsável pela ligação entre o mundo objetivo e nossos atos de significação. Tratar-se-ia de uma “impressão muda” que, tendo partido de estímulos elementares e havendo percorrido um trajeto nervoso rumo ao ponto cerebral em que é decodificada, adquire, então, um significado perceptivo. A sensação seria o elemento do conhecimento, um átomo perceptivo, parte real da percepção. Da ligação entre estímulos e sensações surgiu a hipótese de constância, expressão modelar do prejuízo do mundo objetivo. Com esta hipótese, admitida entre as concepções clássicas da percepção, sustenta-se uma relação direta entre a modificação da intensidade do estímulo e a modificação da sensação correlata, fixando-se, assim, a primazia do objeto e das qualidades que ele emite na forma de estímulos físico-químicos que, em contato com os órgãos dos sentidos, gerarão as impressões responsáveis pelas sensações de cor, de som, de dor, etc.
A ilusão de Müller-Lyer explicita o problema do prejuízo do mundo. No mundo, tomado em si, ambas as retas possuem medidas bem determinadas e idênticas. A visão, entendida nos parâmetros da óptica e da geometria, recebe, portanto, sinais bem definidos que expressam esta igualdade, dizem os psicólogos clássicos. Se há qualquer ambigüidade oferecida pelo objeto, esta se deve a algum processo interveniente, como a desatenção. A noção de atenção surge, então, como hipótese auxiliar destinada a proteger o prejuízo do mundo objetivo. Merleau-Ponty (2005) conclui que é somente no mundo objetivo que se pode colocar a questão de Müller-Lyer. O campo visual, tal como o experimentamos, é um meio em que noções ambíguas se encontram, é o meio da percepção espontânea, em que as duas figuras são apenas diferentes, em que seus vetores impõem configurações distintas que geram um contexto particular para cada uma delas.
É sobre o solo constituído pelas demarcações objetivas do mundo, sobre o solo do “prejuízo do mundo”, que a sensação pode ser nomeada o elemento fundamental da percepção, que se dá através da associação de sensações. Uns dirão que tal associação segue a contigüidade do objeto sensível no espaço e no tempo, outros dirão que ela recorre a recordações ou associações prévias. De um modo ou de outro, estas são respostas que pressupõem o que é preciso explicar, a saber, o caráter significante e já estruturado do mundo que temos a nossa volta.
Nos trabalhos experimentais e nas formulações teóricas elaboradas no seio da Gestalttheorie, Merleau-Ponty vislumbrou a possibilidade de reaproximação ao campo fenomenal, ao mundo da nossa experiência direta e ao qual ele pretendia dar um estatuto filosófico. A consideração da Gestalt como tema de reflexão por parte dos psicólogos significa um rompimento, principalmente com o empirismo, que funda o sentido do percebido no “encontro fortuito entre nossas sensações” segundo nossa natureza psicofisiológica. O sentido passa a figurar na percepção como uma organização irredutível. Para a Gestalttheorie, uma figura sobre um fundo é o dado sensível mais simples do qual podemos ter experiência. Isto implica que todo objeto perceptivo faça parte de um campo e que a pura impressão, ou sensação, seja desconsiderada enquanto momento da percepção. Avançando um pouco mais, afirma-se que todo objeto é percebido em um “horizonte de sentido”. Nota-se, portanto, que a significação do percebido não resulta de processos associativos e, sim, é pressuposta em qualquer idéia associacionista. “Não existem dados indiferentes que em conjunto formam uma coisa porque contigüidades ou semelhanças de fato os associam; ao contrário, é porque percebemos um conjunto como coisa que a atitude analítica em seguida pode discernir ali semelhanças ou contigüidades” (Merleau-Ponty, 1999, p. 39). Na percepção brota “de um só golpe” um sentido imanente à constelação de dados. Da percepção enquanto fenômeno de estrutura, Merleau-Ponty opera, então, uma radicalização que deságua no campo fenomenal, domínio em que as partes de uma paisagem possuem sentido apenas enquanto ideal de conhecimento, domínio em que a totalidade impõe-se como unidade inextricável e da qual fazemos parte, e em que o sentir volta a ser questão para um sujeito da percepção em comunicação vital, prática e concreta com o mundo.
Contudo, para Merleau-Ponty, a noção de Gestalt não foi levada as suas conseqüências mais importantes, o que fica atestado nas conclusões materialistas da escola de Berlim – em que as estruturas psíquicas e biológicas são reduzidas a estruturas físicas.
Em vez de nos perguntarmos que espécie de ser pode pertencer à forma e, revelada na própria pesquisa científica, que crítica ela pode exigir dos postulados realistas da psicologia, nós a colocamos entre os acontecimentos da natureza, a usamos como uma causa ou uma coisa real, e, assim, não pensamos mais segundo a ‘forma’ (Merleau-Ponty, 1942/2006c, p. 212).
Encontramos aqui uma menção à dimensão de crítica radical que Merleau-Ponty opera sobre a psicologia da Gestalt, já considerada um movimento de crítica no seio da psicologia contemporânea.
Pontalis (1993) observa que o interesse que Merleau-Ponty dirigiu à psicanálise desde A estrutura do comportamento ultrapassa a preocupação geral com a não dissociação entre a filosofia e as ciências factuais do homem. De fato, a psicanálise, assim como a psicologia da Gestalt, teve um papel positivo nos esforços de Merleau-Ponty com vistas à superação do dualismo cartesiano e à explicitação da expressividade do sensível e da nossa pertença à natureza. A psicanálise foi lida pelo filósofo de maneira sincrônica à evolução do seu próprio pensamento – afirmação que não deve ocultar a dialética presente nesta leitura. De uma primeira abordagem de caráter estrutural-organicista, o autor passou a uma psicanálise existencial e, por fim, à sua leitura ontológica. Por ora, partindo da afirmação de Merleau-Ponty (2000) de que uma das mais significativas intuições da psicanálise refere-se à nossa arqueologia, esperamos destacar o que o filósofo francês considera como um apagamento das antinomias entre corpo e espírito na psicanálise freudiana, a partir das suas considerações sobre a sexualidade na Fenomenologia da percepção.
Pensar a nossa arqueologia implica buscar uma unidade capaz de se desenvolver, de se reestruturar e de, no interior do seu processo de complexificação, manter o fluxo entre o arcaico e o possível, entre o que foi possível realizar e o seu arcaísmo. De modo que tais clivagens tenham espaço somente enquanto formas ideais de expressão do que permanece unido de modo inextricável na experiência. É nesse sentido que caminha a leitura de Merleau-Ponty (1945/2005) da teoria da sexualidade freudiana. Há uma “zona vital”, aquém dos automatismos e da representação, em que as possibilidades da nossa existência são elaboradas. Esta zona vital compreende a história do nosso desenvolvimento, compreende, entre outras coisas, a história da nossa libido, tida como aquilo que move nossa intencionalidade enquanto sexualidade, ou seja, enquanto geradora de experiências eróticas.
Freud foi um autor importante para a revisão da noção de sexualidade. Segundo Merleau-Ponty (1945/2005), esta noção que durante muito tempo esteve atrelada a automatismos corporais reencontrou na psicanálise “as relações e as atitudes que anteriormente passavam por relações e atitudes de consciência” (Merleau-Ponty, 1945/1999, p. 218). Merleau-Ponty frisa que isso não implica uma biologização da psicologia e, sim, o descobrimento de um movimento dialético em funções antes consideradas simplesmente corporais. A sexualidade foi reintegrada ao ser humano e a todas as fases da sua vida, inclusive, à mais tenra infância.
O fato é que, ao dilatar a noção de sexualidade, Freud deixou em aberto certas ambigüidades. Se a sexualidade pode ser compreendida como uma forma de ser no mundo, devemos considerar que a existência como um todo possui uma significação sexual ou que, por outro lado, é a sexualidade que possui uma significação mais ampla, uma significação existencial? É certo dizer que, em Freud, o sexual não se encontra limitado ao genital e que, tampouco, a libido possa se limitar a um instinto, a uma atividade natural e com fins bem demarcados. Para Merleau-Ponty, a libido é, antes, “o poder geral que o sujeito psicofísico tem de aderir a diferentes ambientes, de fixar-se por diferentes experiências, de adquirir estruturas de conduta” (1945/1999, p. 219). Com efeito, o filósofo francês tende a considerar a sexualidade de um homem como uma organização em que está projetada sua maneira de ser em relação ao mundo, em relação ao tempo e em relação aos outros homens. Desta forma, a vida sexual é concebida como a “elaboração de uma forma geral de vida” (Merleau-Ponty, 1945/1999, p.219) e a sexualidade como uma “uma intencionalidade que segue o movimento geral da existência” (Merleau-Ponty, 1945/1999, p.217). Mas, se é assim que as coisas se passam, por que os obstáculos na sexualidade aparecem como signos privilegiados entre os sintomas que expressam o drama fundamental do neurótico? Merleau-Ponty responde a esta questão, primeiramente, lembrando que problema semelhante foi abordado na discussão sobre as regiões cerebrais e suas possíveis especializações (Merleau-Ponty, 1942/2006b). As regiões cerebrais não funcionam isoladamente, o que não impede, contudo, que uma lesão occipital acarrete um quadro clínico em que haja predominância de perturbações visuais. Em seguida, o filósofo comenta:
a existência biológica está engrenada na existência humana e nunca é indiferente ao seu ritmo próprio. Isso não impede, acrescentaremos agora, que ‘viver’ (leben) seja uma operação primordial a partir da qual se torna possível ‘viver’ (erleben) tal ou tal mundo, e que devamos nos alimentar e respirar antes de perceber e de ter acesso à vida de relação, ser para as cores e para as luzes pela visão, para os sons pela audição, para o corpo do outro pela sexualidade, antes de ter acesso à vida de relações humanas (Merleau-Ponty, 1945/1999, p. 221).
Com isso, Merleau-Ponty afirma o caráter primordial e muitas vezes “anônimo” da sexualidade na existência humana.
Mas como afirmar, a respeito de um sintoma, o seu caráter sexual? A redescoberta do corpo próprio operada por Merleau-Ponty revela-nos um modo de existência ambíguo. Visão, motricidade, sexualidade, entre outros, não são processos em “terceira pessoa”, e sim, funções que se cruzam e se confundem em um “drama único”. Do mesmo modo, a significação dos sintomas possui sempre uma significação mais geral em relação ao passado e ao futuro, ao eu e ao outro, ou seja, em relação às “dimensões fundamentais da existência”. Este é o sentido das interpretações no caso da moça afônica trabalhado por Merleau-Ponty na Fenomenologia da percepção. Seus sintomas, seguramente, possuem ligação com a história do desenvolvimento de sua sexualidade, o que inclui, na perspectiva psicanalítica, a história da relação com sua mãe, responsável pela interdição que desencadeara seus sintomas; possuem ligação, também, com sua atitude diante da finitude e diante de todos aqueles que a cercam, etc.
Mas, onde se encontra, afinal, a unidade de que falamos anteriormente e que mantém fluindo o arcaico em nós, que mantém circulando nossa história pessoal? Onde se encontra a chamada “zona vital” de que fala Merleau-Ponty? Ela é o próprio corpo, está em todo lugar dele, e em nenhum lugar alocada por si mesma. É no corpo próprio que se expressam as modalidades da nossa existência e isto não na forma de um signo que indica a sua significação, como a fumaça sinaliza a existência de fogo, mas na forma de um signo que é habitado pela significação. É no corpo que a existência se atualiza. Os sentidos que vivenciamos e que comunicamos ao mundo e a quem nos cerca são encarnados. Eles surgem, fluem e são elaborados no comércio do corpo com o mundo. E é nesse sentido que o inconsciente, considerado um locus de representação, é rejeitado por Merleau-Ponty – enquanto fruto da presença do realismo em Freud.
Para Merleau-Ponty (1945/2005) as psicologias do inconsciente e as da consciência possuem um parentesco na medida em que abordam conteúdos representativos. Nas primeiras tratam-se sempre de conteúdos manifestos duplicados em conteúdos latentes; nas segundas, conteúdos completamente expostos e distintos. Por outro lado, a psicanálise surgiu como um prolongamento das filosofias mecanicistas do corpo. Condutas complexas eram explicadas pelo instinto, particularmente pelo instinto sexual, ainda baseado em condições fisiológicas, e por composições de forças exteriores à esfera consciente e constituídas na infância (Merleau-Ponty, 1991). Com efeito, a noção de inconsciente, tal como formulada por Freud, apresenta um caráter dualista, pois forças reais, representadas pelas pulsões, ligar-se-iam a representações inconscientes cujo conteúdo remete-nos à infância (Bimbenet, 2004). Para Politzer (1928/2003), Freud, partindo de uma prática terapêutica coerente e concreta, construiu, no entanto, uma metapsicologia realista, que perpetua certas características do naturalismo próprio da sua época. O inconsciente é o elemento de transição entre “a vida anônima do corpo” e nossa vida pessoal expressa e deliberada. Mas, para Merleau-Ponty (1991), a descoberta realmente significativa de Freud refere-se à “osmose” entre essa vida anônima e a vida expressa presente na concepção freudiana de sexualidade e que, em outras palavras, significa a retomada da imbricação do corpo e do espírito. É nesta perspectiva, e não na do inconsciente, que o corpo torna-se o ponto de apoio para uma vida humana (Bimbenet, 2004). E é nessa perspectiva, também, que Merleau-Ponty retoma a idéia de recalque e a de complexo abordadas em A estrutura do comportamento para, na Fenomenologia da percepção, referir-se ao corpo como um complexo inato.
Assim como se fala de um recalque no sentido estrito quando, através do tempo, mantenho um dos mundos momentâneos pelos quais passei e faço dele a forma de toda a minha vida – da mesma maneira pode-se dizer que meu organismo, como adesão pré-pessoal à forma geral do mundo, como existência anônima e geral, desempenha, abaixo de minha vida pessoal, o papel de um complexo inato. Ele não existe como uma coisa inerte, mas esboça, ele também, o movimento da existência (Merleau-Ponty, 1945/1999, p. 125).
É sob a rubrica do “pré-pessoal”, de uma teoria do corpo sensível e da expressão, que o inconsciente é absorvido por Merleau-Ponty (Pontalis, 1993).
Para aquém dos meios de expressão convencionais, que só manifestam meu pensamento ao outro porque, em mim como nele, já estão dadas significações para cada signo, e que nesse sentido não realizam uma verdadeira comunicação, é preciso reconhecer, veremos, uma operação primordial de significação em que o expresso não existe separado da expressão e em que os próprios signos induzem seu sentido no exterior. É dessa maneira que o corpo exprime a existência total, não que ele seja seu acompanhamento exterior, mas porque a existência se realiza nele. Esse sentido encarnado é o fenômeno central do qual corpo e espírito, signo e significação são momentos abstratos (Merleau-Ponty, 1945/1999, p. 229).
Enfatizamos que o pensamento de Merleau-Ponty ancora-se nas ciências factuais, especialmente no desenvolvimento espontâneo da psicologia, que é seguido na certeza de brotar de uma constante autocrítica por parte dos pesquisadores. Segundo Merleau-Ponty, os psicólogos que, ordinariamente, praticam a descrição dos fenômenos não percebem o alcance filosófico do seu método. Segundo ele, a noção de forma não foi levada a diante pela Gestalttheorie a ponto de exigir uma reforma do pensamento objetivo. Contudo, a crítica da noção de sensação revela-nos, segundo Merleau-Ponty, um campo fenomenal no qual reencontramos, a partir da recolocação do problema do sentir, uma experiência direta. No sentir, a qualidade é investida de um valor vital, de um sentido que, desde o princípio, habita o percebido. Quanto à psicanálise, despida de certos preconceitos naturalistas, apresenta noções que, trabalhadas e desenvolvidas, reforçam a tese merleau-pontiana de animação do corpo e que, com efeito, tornaram-se importantes instrumentos conceituais para a elaboração, a partir dos cursos na Sorbonne (Merleau-Ponty, 2001), da noção de “carne” (Bimbenet, 2004).
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Enviado em Dezembro/2007
Aceite em Setembro/2008
Publicado em Março/2009
I Endereço para correspondência: Danilo Saretta Veríssimo. Rua General Rondon, 26, ap. 53, Bairro Aparecida, CEP: 11030-570, Santos, SP. E-mail: .
1 Foucault (2002) fala no estudo das significações objetivas para expressar essa orientação em direção do concreto por parte da psicanálise, da psicologia da Gestalt e do behaviorismo, entre outras correntes.
Notas dos autores: O presente artigo é fruto da articulação de temas abordados em duas comunicações realizadas em sessão de painéis na XXXVII Reunião Anual da Sociedade Brasileira de Psicologia, realizada na UFSC, e de uma comunicação oral realizada no II Congresso Internacional de Filosofia da Psicanálise, realizado na UFSCar.